Da primeira vez [que ele foi como sobrevivente], não conseguimos entrar. Ficamos ali, na antessala. Fomos impedidos pelo comandante e por Bolsonaro, que estava lá. Ele ainda era deputado. Ele ficou na porta tentando tumultuar a entrada. Ele [Bolsonaro] defende a tortura, dizendo que devia ter matado todo mundo. Ele foi para lá para tumultuar mesmo. Nesse dia nós não conseguimos entrar.
Na segunda [quarta] vez, eu fui com parlamentares, tinha pessoal da Comissão da Verdade. Eu era o único preso que lá tinha estado. Então, guiei a visita das outras pessoas pelos locais de tortura. Imagine como foi forte para mim: mostrar para as pessoas a cela em que eu estava, mostrar o local onde eu levei choque elétrico. A sala onde fui colocado no pau de arara. E nessa sala também, que era a mesma das torturas, muitos tinham morrido. Nessa mesma sala foi assassinado o Mário Alves, em janeiro de 1970, e, em 71, lá esteve o Rubens Paiva, que foi assassinado lá e desapareceu.
O local da tortura era um prédio de dois andares, o nome desse prédio é PIC (Pelotão de Investigações Criminais). Ele foi completamente moldado para ser esse local da tortura. Tinha um corredor na entrada e umas três salas. Uma dessas salas era preparada para essas torturas. Tinha lá cavaletes para fazer o pau de arara, e também haviam máquinas de dar choque.
Esperança de que investigações avancem
Pela primeira vez, Caldas viu um general ser preso por atentar contra a democracia. O repórter afirma que a postura que os brasileiros têm assumido contra a impunidade de quem age contra o Estado o enche de esperança. “Não podemos repetir o passado”, afirma.
Bolsonaro esteve quase a ponto de se eleger num cenário que é como uma continuidade da ditadura. Ele é um amigo, um participante daquela ditadura, um defensor dela. Um admirador do Ustra, um dos maiores torturadores. Nós precisamos ter muito cuidado, temos que ter zelar pela nossa democracia.